17 de jul de 2016

ASTROLOGIA E CRISTIANISMO

Uma vez mais fui convidado a palestrar na “Astrológica”, o mais importante evento paulista de Astrologia, que ocorre anualmente na Escola Gaia há 17 anos ininterruptos.
Eu estava, quando do convite, debruçado sobre um particular assunto, buscando compreender as razões da oposição moral e ética das Igrejas cristãs contra a Astrologia.
Pois a vida me aproximara de uma pessoa devotadamente católica que, aos mais de 50 anos, eu percebia como alguém intelectualmente honesto, bem-intencionado e com superior inteligência; esta pessoa, na primeirinha vez em que mencionei Astrologia, reagira com a veemência da aversão, muito além da reação apenas intelectual, como seria a expressão depreciativa: “ah, isto é bobagem...”.
Dispus-me, então, a compreender o que pudessem ser as razões de tal vigorosa reação afetiva, ao invés de desconsiderar o que fora oposição ao que eu dissera ter interesse.
Afinal, quantas vezes muitos de nós, ao serem confrontados, por defesa desvalorizam o argumento do outro e, com isso, deixam de recepcionar seus motivos, o que seria a base de uma verdadeira comunhão de pensamentos? Como construir uma ponte dialogal sem primeiro ver o assunto pelos olhos do interlocutor, para só depois poder contra-argumentar com maior propriedade?
Seguindo um jeito natural de ser, no meu estudo pessoal produzi um texto e, do texto, extraí o material de apresentação que deu base à palestra.

Apresento aqui o texto, então, para quem tenha interesse na questão: “Astrologia e Cristianismo”.




Dentro de sua fé, os cristãos têm sólidos argumentos para se oporem à Astrologia, ao menos como ela costumou ser vista no transcorrer dos séculos.

Antes de ir adiante, entretanto, é preciso delimitar que, ao mencionar “cristãos”, o faço com rigor terminológico, pois em uma cultura como a brasileira é comum chamarem-se cristãs uma miríade de alternativas religiosas nas quais os núcleos de fé caracteristicamente cristãos são sincretizados ou sequer estão presentes, como o de Jesus Cristo ter sido o próprio Deus feito carne e não somente “um espírito evoluído” (donde Maria, Mãe de Deus, na Ave-Maria, e não, “Maria, Mãe de Jesus”, como se ora alhures), ou o de haver um único Deus a adorar e louvar e, não, uma pluralidade de deuses ou deus algum.

O Catecismo da Igreja Católica, documento central da Santa Sé, é preciso em seu Artigo 2.116, Terceira Parte, Segunda Seção: Todas as formas de adivinhação devem ser rejeitadas: recurso a Satanás ou aos demônios, evocação dos mortos ou outras práticas supostamente “reveladoras” do futuro. A consulta dos horóscopos, a astrologia, a quiromancia, a interpretação de presságios e de sortes, os fenômenos de vidência, o recurso aos “médiuns”, tudo isso encerra uma vontade de dominar o tempo, a história e, finalmente, os homens, ao mesmo tempo que é um desejo de conluio com os poderes ocultos. Todas essas práticas estão em contradição com a honra e o respeito, penetrados de temor amoroso, que devemos a Deus e só a Ele [destaque meu].

O Catecismo se apoia em trechos da Bíblia. Segundo Deuteronômio, 18, 10: Não haverá no meio de ti ninguém que faça passar pelo fogo seu filho ou sua filha, que interrogue os oráculos, pratique sortilégios, magia, encantamentos, enfeitiçamentos, recorra a adivinhação ou consulte os mortos. Ou, conforme Jeremias, 29, 8: Sim, assim fala o Senhor de todo o poder, Deus de Israel: não vos deixeis enganar pelos profetas e pelos adivinhos que estão no meio de vós, nem presteis atenção aos vossos sonhos; o que eles profetizam em meu nome é falso: eu não os enviei – oráculo do Senhor.

Dentre as três virtudes teologais (das quais a terceira, e não em importância, é a caridade), se as virtudes da fé e da esperança são o que deve orientar e suster o fiel na existência, a tentativa de controle (pela previsão) do futuro contraria a atitude de fé. Por tal fato o Catecismo resume: “tudo isso [toda forma de adivinhação] encerra uma vontade de dominar o tempo, a história e, finalmente, os homens”.

Isto não se dá só na Igreja Católica, um dos pilares do Cristianismo, já que as raízes da oposição vêm de um tempo bastante antigo e anterior ao surgimento da Igreja Ortodoxa do Oriente (1054) e da Igreja Reformada ou Protestante (1517), e todas as três principais Igrejas cristãs se opõem a quaisquer práticas divinatórias, entre elas a Astrologia.

Penso em S. Agostinho (354-430), que pregou e escreveu nos Séculos IV e V, cujo pensamento se espraiou em variada medida pelas diferentes raízes cristãs.

Em sua autobiografia Confissões (Livro 4, Capítulo III), ele exclama: Porque o bom é confessar-te, Senhor, e dizer-te: “Tem misericórdia de mim, e cura minha alma, porque pecou contra ti”, e não abusar da tua indulgência para pecar mais livremente, mas ter sempre presente a sentença do Senhor: “Eis-te curado: não peques mais, para que te não suceda algo pior” [Jo, 5: 14]. Estas palavras, cujo efeito salutar os astrólogos querem destruir, dizendo: “O impulso de pecar vem dos céus; foi Vênus, Saturno ou Marte que fizeram isto”, é tudo para que o homem, que é carne, e sangue, e soberba podridão, se sinta sem culpa, e atribua esta ao criador e ordenador do céu e das estrelas.

Fala ele, aqui, de ética, pois se a atitude decorre de escolha feita, pode indicar mérito ou demérito – o que não ocorre, nem mérito, nem demérito, se houver obrigação de ação por “influência de corpos celestes”: como acusar ou elogiar alguém, se a opção ou atitude decorreu de causa externa que coagiu a pessoa e sua vontade ou escolha?

Tal como S. Basílio de Cesareia, importante pensador cristão do Século IV, indagou na Sexta Homilia do Hexameron: “Se os princípios de nossos atos não dependem de nosso poder, se são necessidades que derivam do nosso nascimento, de que servem os legisladores que nos indicam o que devemos fazer e o que devemos evitar? Para quê, juízes que exaltam a virtude e denunciam o vício?

A suposição de “influência dos corpos celestes”
Poderíamos estar falando somente de escolhas éticas ou morais, aspecto central de todo sistema filosófico ou religioso, sem que enveredássemos a discutir o quanto a Astrologia é ou não eficaz, mencionando-se “eficácia” como competência para identificar os efeitos de supostas “influências dos corpos celestes” sobre o ser humano e a vida.

Mas S. Tomás de Aquino (1225-1274) propõe a discussão e diz haver influência.

Em sua magistral obra Suma de Teologia (II, Questão 9, Artigo 5) ele afirma: o apetite sensitivo é ato de um órgão corporal. Assim, nada impede que, sob a influência dos corpos celestes alguns estejam mais dispostos à ira, à luxúria ou alguma outra paixão semelhante, como podem senti-lo por compleição natural. No entanto, a maioria dos homens segue suas paixões. Portanto, verifica-se na maioria o que é anunciado sobre os atos de homens através do estudo dos corpos celestes. No entanto, como Ptolomeu diz no Centiloquium: ‘O homem sábio domina as estrelas, porque, ao resistir às paixões, evita o efeito dos corpos celestes com sua vontade livre e nunca submetida ao movimento celeste’ [destaques meus].

É nítido, no pensamento tomista, como também o fora no pensamento aristotélico – já que S. Tomás de Aquino e Ptolomeu, um dos principais codificadores da Astrologia na Antiguidade, seguiram os passos de Aristóteles –, a suposição de que os corpos celestes influem sobre os corpos humanos e causam paixões que vicejam no homem.

Todavia, S. Tomás de Aquino impõe distinção: se os corpos celestes podem atuar sobre o corpo humano e dar origem às paixões que nele brotam, não o fazem em relação à capacidade intelectiva do homem e sua vontade, entendendo-se, “vontade”, como aquilo que norteia o ser humano em suas escolhas e atitudes.

Vale ver o que S. Agostinho diz sobre “vontade” em A Trindade (Livro X, 11.18), ao falar das “três potencialidades da alma”: as três, memória, inteligência e vontade, não são três vidas, mas uma vida; e nem são três almas, mas uma alma; consequentemente, não são três substâncias, mas uma só.

Pois sem a memória nada se preserva, sem a inteligência nada se cria e sem a vontade nada se ama, e todas elas são uma só alma (e, assim também, uma única mente, ou psique).

Para, a seguir, expandir o raciocínio: eu me lembro de que tenho memória, inteligência e vontade; compreendo que entendo, quero e recordo; quero querer, lembrar-me e entender (...) Como todas e cada uma das faculdades [lembrar, pensar e querer] se contêm umas às outras, existe igualdade entre cada uma com as outras, e cada uma com todas juntas em sua totalidade [por mais que as três sejam distintas entre si]. E as três formam uma só unidade: uma só vida, uma só alma e uma só substância.

Vida que é guiada pela vontade (que vai em busca do que ama), apoiada na memória (que lembra o que foi vivido) e auxiliada pela inteligência (que pensa sobre o que quer).

S. Tomás de Aquino afirmou, na obra Suma contra os Gentios (Capítulo LXXXV), que os corpos celestes só influem diretamente sobre os corpos humanos. Se fossem, portanto, causa de nossas escolhas, isto ocorreria ou por conta da influência sobre os nossos corpos ou por conta de nos influenciarem desde fora. Mas de nenhuma forma podem ser causa de nossas escolhas. Pois não é causa suficiente de nossa escolha o que nos é apresentado exteriormente; ao encontro de algo deleitável, a saber, um manjar ou uma mulher, aquele que não se contém se mobiliza para escolhê-lo e aquele que se contém sequer se move. De igual maneira, tampouco basta para forjar nossa escolha qualquer mudança que possa ocorrer em nosso corpo por influência de um corpo celeste, porque o corpo celeste apenas causa em nosso corpo certas paixões mais ou menos veementes; paixões que, mesmo veementes, não são causa suficiente de escolha, já que, se arrastam o [indivíduo] incontinente, não conseguem mover o continente. Logo, pode-se afirmar que os corpos celestes não são causa de nossas escolhas [destaques meus].

S. Tomás de Aquino, como Aristóteles antes dele, supõe que os corpos celestes influem sobre o estado de alma do indivíduo (embora sem precisar quais corpos celestes, razão pela qual pode ter se limitado ao Sol e à Lua ou pode ter também abrangido, em sua concepção, Mercúrio, Marte, Vênus, Júpiter e Saturno, além das “estrelas fixas”).

Ressalvo: digo “estado de alma” enquanto figura de linguagem, já que ele menciona “paixões” como ira, gula ou luxúria.

S. Tomás de Aquino também diz em Suma de Teologia (Questão 9, Artigo 5): Os movimentos corporais humanos se reduzem ao movimento dos corpos celestes como sua causa, porque a própria disposição de órgãos, adequada ao movimento, procede de alguma forma da influência dos corpos celestes; também, porque o apetite sensitivo se altera pela influência dos corpos celestes; também, porque os corpos exteriores se movem pelo movimento dos corpos celestes e por causa de seu encontro a vontade começa a querer ou a não querer algo; por exemplo: quando fica frio, alguém começa a querer fazer fogo. Mas esse movimento é devido à apresentação de algo exterior ao objeto, e não a um impulso interior [destaques meus].

Sabe-se hoje que a suposição de os corpos celestes influírem diretamente nos corpos humanos, ao menos como sempre foi afirmado na Astrologia convencional, não fica em pé quando se escrutina não só os dados conhecidos pela Ciência, mas também os procedimentos técnicos adotados pela própria Astrologia (a este respeito, sugiro a leitura de Por uma Filosofia da Astrologia, 2º cap.).

Então, não é de “energia celeste” que se trata, a despeito de ter sido suposto assim por S. Tomás de Aquino, fiel em seu tempo à teoria aristotélica.

Aristóteles (384-322 a.C.) teorizou em De cælo (Sobre o céu) que os corpos celestes foram formados a partir de um mesmo elemento fundamental, o Éter. Segundo este filósofo, o Éter, criado por Deus, constituiu o céu, sendo que tudo o que é “sublunar”, ou seja, abaixo da Lua, ou mais simplesmente ainda, terrestre, foi composto pelos quatro Elementos (Fogo, Terra, Ar ou Água), todos originados do Éter.

Em Meteorologica (Os corpos celestes), Aristóteles explicou que este mundo tem necessariamente uma certa continuidade com os movimentos superiores. Consequentemente, todo seu poder e ordem provêm deles. Pois o princípio originador de todo movimento é a causa primeira. Além disso, esse corpo é eterno e seu movimento não tem limite no espaço, mas é sempre completo, enquanto todos os outros corpos possuem regiões separadas que limitam uma à outra. Assim, devemos tratar fogo e terra e os elementos semelhantes a eles [ar e água] como as causas materiais dos acontecimentos neste mundo (significando o material que é sujeito e é afetado), mas devemos assinalar causalidade, no sentido de princípio originador do movimento, à influência dos corpos que se movem eternamente [os “Planetas”, compostos de Fogo, Terra, Ar ou Água, e originados do Éter].

A ação de “espíritos não bons” ou “poderes ocultos”
Porém, se não há “influência dos corpos celestes” como verdadeira causa eficiente, de que se trata, então?

O que permite que astrólogos, quando competentes, realizem bem diagnósticos ou prognósticos com base no que analisam em Cartas astrológicas, ou horóscopos?

S. Agostinho levanta outra possibilidade, com isso fornecendo mais um argumento que, de dentro de sua fé, os cristãos apresentam contra a Astrologia.

Em Cidade de Deus (Livro 5, Cap. VII), ele afirmou: quando os astrólogos admiravelmente prognosticam muitos eventos que se mostram verdadeiros, isso ocorre por influência de espíritos não bons, a cujo cargo está estabelecer nos homens estas falsas e danosas opiniões sobre os desígnios e influxos das estrelas, e não por alguma arte que observa e analisa o horóscopo, porque ela não existe.

Como se vê, segundo ele nada é possível saber em decorrência de uma arte que observa e analisa o horóscopo, já que esta arte não existe: para S. Agostinho, o que o astrólogo informa, quando acerta o que prediz, o faz sob efeito de espíritos não bons, isto é, parece que praticando o que hoje poderíamos chamar “mediunidade” ou “canalização”, objeção também adotada por S. Tomás de Aquino em Suma Teológica.

Ocorre que esta hipótese igualmente não se sustenta. Ao tempo de S. Agostinho ou S. Tomás de Aquino, quando eram bem poucos os que se dedicavam à Astrologia (já que isto requeria ter podido estudar as ciências formais da época, coisa para uns mais afortunados), poderia se supor que estes bem poucos fossem indivíduos especialmente sensíveis ao que espíritos não bons lhes transmitissem (ou escolhidos a dedo para isso), como sugerido por S. Agostinho e ecoado por S. Tomás de Aquino.

Contemporaneamente, quando se contam às dezenas de milhares os estudiosos e praticantes de Astrologia em todo o mundo e, principalmente, quando há metodologia desenvolvida para disseminar e replicar internacionalmente conhecimento formalizado da área, e com isto capacitar novos astrólogos, decerto não é disto que se trata.

Dou-me como mero exemplo: quando a Astrologia entrou em minha vida, em não mais de um semestre absorvi (com paixão) 5.000 páginas de literatura especializada em português, inglês, espanhol e francês, conteúdo que se mesclou ao que, havia quase 20 anos, ordenadamente eu estudava de Psicologia. Assim, com base no que já conhecia e no saber astrológico de autores brasileiros, franceses, ingleses e norte-americanos, e de outros países, passei a deter o necessário para atuar como astrólogo e até mesmo, algum tempo depois, principiar a escrever sobre o assunto, divulgando o que desenvolvi apoiado no conhecimento de outrem e na minha própria prática.

Hoje, é possível que do outro lado do mundo alguém aproveite o que escrevi para, por sua vez e em seu modo, construir conhecimento na área, em ato de aprendizado e, não, por influência direta de “espíritos” (ou, ao menos, nada parece indicar isto), sejam “bons” ou “não bons”.

Permanece a questão: o que faz a Astrologia funcionar?
O Papa João Paulo II, na Carta Encíclica Fé e Razão ensinou em 1998 que a fé e a razão (fides et ratio) constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de O conhecer a Ele, para que, conhecendo-O e amando-O, possa chegar também à verdade plena sobre si próprio.

Em meu modo de ver, disto sempre se tratou: além de ter fé, buscar compreender, já que fé e razão são as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva.

Sem uma delas, fica-se manco e o que é humano empobrece.

Para tanto – compreender –, é fundamental superar a mais perniciosa e insidiosa superstição recorrente nos que estudam ou praticam Astrologia: a existência de “influência dos corpos celestes” sobre o ser humano e seu corpo, suas ideias e seus sentimentos, causando ou direcionando-lhe as escolhas e atitudes.

Perniciosa, deve ser realçado, menos por ser infundada e, mais, muito mais! por permitir que quem a carrega se mantenha – sem saber – na cômoda posição de que acredita conhecer e, por consequência, de não agir no sentido de buscar, de fato, compreender. Afinal, se supõe entender o que ocorre, por qual razão investiria tempo buscando uma outra explicação, o que, além de tudo, exige conseguir admitir que, em verdade, não sabe?

No Século XIII, de S. Tomás de Aquino, e menos ainda no Século IV, de S. Agostinho, nada se conhecia de teoria de Psicologia. Ainda assim, a existência de dinamismos inconscientes que subjugam a vontade, independente de como a pessoa escolhe orientá-la, foi continuado objeto de questionamento e teorização por filósofos e teólogos.

S. Paulo lamentou em Romanos, 7, 19: Visto que não faço o bem que quero, mas o mal que não quero. Ora, o que, em alguém, o leva a fazer o contrário, ou ao menos muito diferente, do que pensa ou diz querer?

S. Paulo ficou na explicação de ser o pecado e S. Agostinho, sem contraditá-lo, foi além. Em sua autobiografia (Livro 8, cap. XI), indagou: Donde provém este prodígio? Qual, a causa? A alma manda ao corpo, e este imediatamente lhe obedece; a alma dá uma ordem a si mesma, e resiste! Ordena a alma à mão que se mova, e é tão grande a facilidade, que o mandato mal se distingue da execução. E a alma é a alma, e a mão é corpo! A alma ordena que a alma queira; e, sendo a mesma alma, não obedece. Donde nasce este prodígio? Qual, a razão? Repito: a alma ordena que queira – porque se não quisesse não mandaria – e não executa o que lhe manda! Mas não quer totalmente. Portanto, também não ordena terminantemente. Manda na proporção do querer (...) Portanto, não é prodígio nenhum, em parte querer e em parte não querer, mas doença da alma. Com efeito, esta, sobrecarregada pelo hábito, não se levanta totalmente, apesar de socorrida pela verdade. São, pois, duas vontades. Porque uma delas não é completa, encerra o que falta à outra.

S. Agostinho aventou a existência de diferentes, senão por vezes opostas, vontades no interior da pessoa, uma mais consciente: a que se diz ser querida, e outra menos consciente: a que também quer, tanto quanto a primeira, mas não é bem percebida.

A isto, a Astrologia Arquetípica também refere: seus símbolos indicam a conformação e o estado de dinâmicas interiores do indivíduo e, consequentemente, o conjunto de condicionantes internos dos seus comportamentos, que influem decisivamente sobre escolhas e atitudes e, portanto, na orientação geral (ou particular, em cada fase) na vida.

Mas como se dá esta indicação? A que dados sobre a existência a Astrologia Arquetípica, de fato, pode apontar?

Ao tempo de Aristóteles, de S. Agostinho ou de S. Tomás de Aquino, no âmbito da razão (e da Ciência) nada permitia supor haver campos imateriais e intemporais influindo sobre a constituição e a dinâmica da existência, como somente a Física da Relatividade e a Física de Partículas (ou Quântica) do Século XX puderam conceituar e experimentalmente demonstrar.

Bem verdade que, estabelecendo o que pode ser visto hoje em dia como estreita analogia com a noção de “campos imateriais e intemporais atuando sobre a existência”, Platão concebeu haver Ideias Eternas (ou “arquétipos”, que supunha terem origem divina) presidindo a constituição das coisas, todas as coisas, feito sementeira da existência.

Segundo Platão (428-347 a.C.), “lá” existem Ideias Eternas e, “aqui”, há manifestações existenciais daquelas Ideias Eternas, sejam coisa ou característica de pessoa.

Mas fora da fé, isto é, no âmbito da razão, até a formulação matemática da ocorrência de Não-localidade (John Bell, 1964) e da existência da Ordem Implicada (David Bohm, 1980), o paradigma dominante era o da ação mecânica ou enérgica por detrás de todas as coisas, inclusive o espaço e o tempo.

(“Não-localidade”em Física Quântica, ou de Partículas, é o fato de dois estados quânticos entrelaçados reagirem no exato mesmo tempo quando há alteração de um dos componentes emaranhados, independente de distância existente entre eles. Isso é o que Einstein, por não admitir certos postulados da Física Quântica, ironicamente chamou de “ação fantasma a distância”. Já, “Ordem Implicada”, hipotetiza matematicamente a conformação de campos imateriais nos quais a existência já está potencialmente dada, podendo manifestar-se como “Ordem Explicada”, a qual, então, experimentamos.)

Como exemplo do paradigma de energia e matéria, Aristóteles definiu em De generatione et corruptione (Sobre a geração e a corrupção): se devemos investigar ação e passividade e combinação, devemos também investigar contato. Pois ação e passividade, no sentido próprio das palavras, só podem ocorrer entre coisas que se tocam uma à outra. E as coisas não podem se combinar a menos que entrem em certo tipo de contato. Todas as coisas que admitem combinação devem ser capazes de contato recíproco, e o mesmo é verdadeiro de duas coisas quaisquer, uma das quais age e a outra sofre a ação, no sentido próprio dos termos [destaque meu]

Portanto, se para ele havia influência de corpos siderais sobre o ser humano e seu destino, isto só poderia se dar de modo material ou enérgico: em certo tipo de contato.

Com idêntico sentido, em 1693 Isaac Newton (1643-1727 a.C.) escreveu ser inconcebível que a matéria bruta, inanimada, opere sem a mediação de alguma outra coisa, não-material, sobre outra matéria e a afete sem contato mútuo (...) Que a gravidade devesse ser inata, inerente e essencial à matéria de modo que um corpo pudesse atuar sobre outro à distância através de um vácuo, sem a mediação de qualquer coisa, por cujo intermédio sua ação e força pudesse ser transmitida de um corpo para outro, é para mim um absurdo tão grande que acredito que nenhum homem dotado de uma faculdade de pensamento competente em questões filosóficas jamais possa cair nele. A gravidade deve ser causada por um agente que atua constantemente de acordo com certas leis; mas se esse agente é material ou imaterial é uma consideração que deixo para meus leitores.

Esta consideração só pôde ser levada a cabo no decorrer do Século XX e a ocorrência de Não-localidade se comprovou experimentalmente em 1982 pelo físico francês Alain Aspect, por conseguinte deixando de ser apenas uma hipótese matemática da Física de Partículas (ou Quântica) para ser fato objetivo admitido.

Aqui não é o melhor lugar para aprofundar questões sobre a não-obrigatoriedade de ação material ou enérgica, ao menos como as conhecemos, para que fenômenos ocorram no tempo e no espaço, mas cabe recordar que, em 1916, em Teoria da Relatividade Especial e Geral, Einstein frisou que o fato de o conceito de campo emancipar-se da necessidade de um substrato material pertence aos processos psicológicos mais interessantes no desenvolvimento do pensamento físico [destaque meu].

Campos imateriais dispondo a existência
Contemporaneamente, hipóteses como a dos campos mórficos e ressonância mórfica (1981), do biólogo inglês Rupert Sheldrake, da Universidade de Cambridge, parecem apontar a existência de campos imateriais organizadores da existência inanimada e animada e, por resultado e de certo modo, de dinâmicas psíquicas fundamentais – portanto, codeterminantes do comportamento.

Como ocorre na Ciência, nada surge do nada. Em suas pesquisas e conceitos sobre campos imateriais codeterminantes de formas, Sheldrake foi antecedido, ao menos, pelo zoólogo alemão Hans Speman e pelo neuroanatomista norte-americano Harold Burr.

Speman, trabalhando com embriões de salamandras na Universidade de Freiburg, descobriu na primeira metade do Século XX que certas células, ao se localizarem na superfície embrionária do animal, davam origem aos seus olhos; contudo, se estas células fossem removidas, e no local fossem implantadas células retiradas de outro local do embrião, o olho se formava normalmente, como se nada houvesse havido.

A isto ele chamou “efeito organizador”, conceito que lhe deu o Nobel de Fisiologia em 1935.

Já, Burr, Professor Emérito da Faculdade de Medicina da Universidade de Yale, pesquisou nas décadas de 1930 a 1950 campos detectáveis existentes em torno de seres vivos, que ele nomeou de “L-fields” (“Life-fields”), e constatou que o L-field é determinante e controla o crescimento e o desenvolvimento da forma do ser em causação, seja semente de planta ou ovo animal ainda não fecundado, sendo que, segundo ele, o campo determina e é, ao mesmo tempo, determinado, devendo-se notar que, no desenvolvimento do embrião, mesmo após a fecundação do óvulo o campo não se alterava, mantendo-se constante e com isto indicando não ter natureza material ou enérgica como as que conhecemos, ao não refletir a intensa alteração biológica que ocorria no óvulo.

Minha hipótese é a de que a existência manifesta – seja matéria inanimada, estrutura corporal ou dinâmica psíquica fundamental e, sendo psiquismo, individual ou coletivo – é em imensa medida determinada ou condicionada por uma teia de campos imateriais e intemporais associáveis a arquétipos (digo “imensa medida”, porque não se pode desprezar o efeito de heranças materialmente transmissíveis, como a genética e ou a congênita, e os efeitos do meio ambiente mediato e imediato durante a causação da coisa ou pessoa).
E que tais campos imateriais e intemporais são correlacionáveis a símbolos criados pela mente humana, entre os quais os astrológicos, em sua incessante tarefa de apreensão, entendimento e conceituação da existência manifesta.
Se for assim, o que a simbólica da Astrologia Arquetípica denota parece ser o conjunto de campos imateriais diretamente atuantes sobre o aspecto da existência que está sendo estudado a cada caso (seja coisa, pessoa ou evento), retratados simbolicamente e referidos a arquétipos, e o conjunto de efeitos mais prováveis destes campos, dentro do que se costumou empiricamente verificar em cada tipo de ente inanimado ou animado.

Milênio e meio atrás, na ausência deste conhecimento (embora seja ainda uma hipótese), a capacidade de detecção de tais efeitos poderia parecer somente coisa de espíritos não bons, como acreditado por S. Agostinho.

Pela mesma razão, se para S. Tomás de Aquino a própria disposição de órgãos, adequada ao movimento, procede de alguma forma da influência dos corpos celestes, como é que ele poderia conjecturar, fora do âmbito da fé (“espíritos”) e no âmbito da razão (e da Ciência da época), a existência de campos imateriais e intemporais codeterminando a disposição ou a forma dos órgãos, conceito que permitiria a ele deixar de supor a existência da “influência dos corpos celestes”?

Livre-arbítrio e condicionamento
Resta ainda, por ver, o arbítrio: o ser humano é verdadeiramente livre para escolher?

Como se sabe, é e não é.

É, no sentido de poder livremente optar entre diferentes atitudes possíveis, segundo a consciência que tenha e os valores éticos e morais que adote. Não é, no sentido de que compulsões desconhecidas advindas de sua herança e de seu inconsciente interferem, até de modo determinante, em suas atitudes, orientando suas escolhas e restringindo-lhe a amplitude do leque interno de possibilidades de atuação.

Isto, já encontramos em S. Agostinho: A alma ordena que a alma queira; e, sendo a mesma alma, não obedece. Donde nasce este prodígio? Qual, a razão? Repito: a alma ordena que queira – porque se não quisesse não mandaria – e não executa o que lhe manda! Mas não quer totalmente. Portanto, também não ordena terminantemente. Manda na proporção do querer (...) Portanto, não é prodígio nenhum, em parte querer e em parte não querer, mas doença da alma.

Repito o que foi visto: para S. Tomás de Aquino, nada impede que, sob a influência dos corpos celestes alguns estejam mais dispostos à ira, à luxúria ou alguma outra paixão semelhante, como podem senti-lo por compleição natural. No entanto, a maioria dos homens segue suas paixões. Portanto, verifica-se na maioria o que é anunciado sobre os atos de homens através do estudo dos corpos celestes. No entanto, como Ptolomeu diz no Centiloquium: O homem sábio domina as estrelas, porque, ao resistir às paixões, evita o efeito dos corpos celestes com sua vontade livre e nunca submetida ao movimento celeste.

Como se vê, admitindo a existência de “influência dos corpos celestes” sobre o corpo e as emoções humanas (“paixões”), S. Tomás de Aquino (assim como Ptolomeu) assume que o homem não precisa necessariamente ceder ao efeito destas influências, exercendo a livre vontade e se orientando para o Bom, Belo e Verdadeiro: Deus.

Assunto que nos leva ao dominicano S. Alberto Magno (1193-1280), que foi mestre de S. Tomás de Aquino na Universidade de Paris e é tido como um dos mais completos teólogos cristãos do Século XIII.

Naquele tempo, e a pedido do Papa Alexandre IV, S. Alberto Magno escreveu em 1260 Speculum Astronomiæ (O espelho da Astronomia), obra que marcou em profundidade o pensamento científico e teológico da época.

Sobre S. Alberto Magno, em 2010 o Papa Bento XVI afirmou que, com rigor científico, estudou as obras de Aristóteles, convencido de que tudo o que é realmente racional é compatível com a fé revelada nas Sagradas Escrituras. Por outras palavras, S. Alberto Magno contribuiu, assim, para a formação de uma filosofia autônoma, diferente da teologia e unida a ela somente pela unidade da verdade. Assim nasceu, no século XIII, uma clara distinção entre estes dois ramos do saber, filosofia e teologia, que, dialogando, cooperam harmonicamente para a descoberta da autêntica vocação do homem, sedento de verdade e de felicidade: é sobretudo a teologia, definida por S. Alberto como “ciência afetiva”, que indica ao homem seu chamado à alegria eterna, uma alegria que brota da plena adesão à verdade.

E recordou que o Papa Pio XII o nomeou padroeiro dos que cultivam as ciências naturais e ele também é chamado de ‘Doctor universalis’, precisamente pela vastidão dos seus interesses e do seu saber.

Para S. Alberto Magno, o Santo padroeiro dos cientistas, se Deus (...) ordenou este mundo (...) de modo a funcionarem as coisas criadas (...) através de estrelas (...), como se através de instrumentos (...), o que poderia ser mais desejável para o homem que pensa, do que ter uma ciência intermediária [i.e., entre a Filosofia natural e a Metafísica] que pode nos ensinar isso e que as mudanças no mundo mundano são efetuadas pelas mudanças nos corpos celestes? (Si... ordanavit Deus... mundum istum... velit operari in rebus creatis... per stellas... sicut per instrumenta... quid desideratius concionatori quam habere mediam scientiam, quae doceat nos qualiter mundanorum ad hoc et ad illud mutatio caelestium fiat corporum mutatione?).

Por esta razão, e para ele, estudar a influência dos corpos celestes era um componente importante dos estudos daqueles que abraçam a fé cristã, para entenderem que todas as coisas são de Deus, já que, ao influenciar [o homem] por meio dos movimentos do céu, [Ele] regula e causa alterações na operação intelectual da alma (Deus influens per motum caeli regulat et causat operationes intellectuales animae).

Segundo o Speculum Astronomiæ, o estudo da Astrologia demonstra que o céu e a terra obedecem à mesma lei imutável, o que produz no homem um ardente amor por Deus (provocat ad hominem Deum ardentius dilegendum), a partir da compreensão de que existe apenas um Deus, glorioso e sublime no céu e na terra, e que o movimento do inferior obedece o do superior (quod non sentar nisi unus Deus gloriosus et Sublimis em caelo et in terra, si videlicet motus inferior motui superiori oboedit).

Para S. Alberto Magno não há dúvida: é claramente comprovado por meio desta ciência [a Astrologia] que a obediência mencionada [dos objetos terrestres às influências celestes] existe e perdura, imutável (nunc autem ex ista scientia convincitur evidenter, quod dicta oboedentia stet atque immutabiliter perserveret).

Mais ainda: ele julgava que nenhuma ciência humana alcança compreender a ordem do universo tão perfeitamente como a ciência dos julgamentos das estrelas (quam universi ordinationem nulla scientia humana perfecte attingit, sicut scientia iudicorum astrorum).

Por tudo isto, para S. Alberto Magno a Astrologia não destruía o livre-arbítrio, mas, antes, permitia dirigi-lo e retificá-lo (quid melius fieri conveniat, hoc an illud. Et illae quae sunt consilii, non destruunt ... rectificant ... arbitrii consilii), devendo haver tal propósito.

Todos os intelectuais medievais que escreveram na esteira do Renascimento do Século XII, após o surgimento das primeiras Universidades europeias, abraçaram o princípio central da Astrologia, segundo o qual a humanidade existe dentro do que se supunha ser “uma teia de influências celestes que afetam o reino terrestre”, donde a discussão ética e moral sobre a possibilidade de prever eventos futuros pelo estudo dos movimentos dos corpos celestes, assim como sobre a necessidade de resistir ao efeito dos próprios corpos celestes, como lembrado em S. Tomás de Aquino.

Já vimos que o que naquela época (e, de certa forma, até hoje) se julgava ser “uma teia de influências celestes” de fato pode ser uma “teia de campos imateriais e intemporais” codeterminando a existência e sendo indicada simbolicamente pela Astrologia, mas evitar o efeito dos corpos celestes ou resistir às paixões suscitadas por eles implica bem mais do que ter decisão moral ou ética adequada, ou deixar-se orientar pela fé: demanda transformação pessoal íntima, com a pessoa se capacitando para a evitação ou resistência.

Provavelmente, a esta transformação interior S. Paulo se referia ao pedir: despojai-vos do homem velho com as suas práticas e revesti-vos do homem novo, que se renova para o conhecimento, segundo a imagem do seu criador (Colossenses, 3: 9-10).

Ocorre que o “homem novo” só poderá ser redivivo após passar por dentro de si, razão pela qual S. Agostinho incitou em A verdadeira religião (Cap. 39, 72): não saias de ti, mas volta para dentro de ti mesmo, a Verdade habita no coração do homem.

Pois tal capacitação pessoal requer autoconhecimento, como S. Teresa de Ávila alertou em Castelo Interior (Primeiras moradas, Cap. 2, 9): a questão de nos conhecer é tão importante que eu gostaria que não houvesse nenhuma negligência, por mais elevadas que estejais no céu (...) E assim volto a dizer que é muito bom, extremamente bom, entrar primeiro no aposento do conhecimento próprio antes de voar aos outros, porque esse é o caminho. Se podemos ir pelo seguro e plano, porque haveremos de querer asas para voar? Devemos, pelo contrário, aprofundar-nos mais no conhecimento de nós mesmas.

A Astrologia do Século XXI, e aqui me refiro diretamente à Astrologia dedicada a descrever o comportamento humano, vencendo o muito antigo e teimosamente recorrente conceito de “influência dos corpos celestes”, como se de “energia cósmica” tivesse se tratado algum dia!, e enriquecida por conceitos recentes advindos da Física de Partículas, da Psicologia e da Semiologia (especialmente a Simbólica), oferece recursos que permitem identificar dinâmicas inconscientes residentes e atuantes no indivíduo, o que propicia um melhor entendimento das razões de suas atitudes e escolhas, de certa forma independente de como sua vontade consciente se orienta, exatamente para que seja possível lidar com tais dinâmicas de modo a facilitar à pessoa o realinhamento da sua vontade, quanto necessário e possível, e orientá-la para o Bom, Belo e Verdadeiro (se houver a intenção).

Neste sentido, e a meu ver somente nele, é que se deve entender a possibilidade de a Astrologia ajudar a identificar, com alto grau de probabilidade, “o que deverá acontecer” na vida de alguém em momento vindouro.

A detecção de dinâmicas inconscientes residentes e influentes, e de como elas estarão atuando no indivíduo em momento posterior, segundo o que a simbólica astrológica utilizada denota no tempo (de acordo com cálculos matemáticos específicos), permite construir com maior ou menor grau de acerto um rico panorama de probabilidades de ocorrência, entre as formas humanas mais costumeiras de atuar ou reagir, por pressões internas, e de respostas ambientais a elas, por atitudes e ou ações de outrem.
Junto a isso, permite descrever a “marca do tempo” do instante futuro estudado (ainda conforme a simbólica e os arquétipos denotados) e o cortejo de eventos peculiares que, por sincronicidade, com maior probabilidade estarão ocorrendo em torno do indivíduo naquele exato tempo, compondo um amplo quadro geral então mais bem definível, devendo ser todas as vezes lembrado que, ocorrendo o acaso ou a Vontade de Deus, este quadro poderá ser outro em vária medida, o que nem sempre é considerado.

Vista assim, a Astrologia contemporânea, no tocante ao ser humano e suas tentativas de autoconhecimento para auto-aperfeiçoamento, pode ser poderoso recurso propiciador de informação para melhoria de si, antes do que tão-somente ferramenta de “adivinhação de futuro” em busca de proteção contra ameaças ou de preparação para aproveitar melhor o que poderá vir a ser – embora haja quem a utilize buscando obter controle, e só.

Como sugeri em Astrologia Arquetípica, autoconhecimento e espiritualidade, para sanar as “doenças da alma” e poder agir mais de acordo com o arbítrio consciente, não há outro caminho senão o do autoconhecimento, até o nível mais profundo atingível, deixando mais claro para si o que lhe é plausível e, dentro deste limite, optando entre as alternativas existentes (que, em grande parte, inclusive, não dependem de preferência pessoal ou escolha).

Só assim alguém consegue vencer em grau variável as determinações originadas na dinâmica de seu inconsciente e, de certo modo, ao trabalhar por modificar tais dinamismos, também alterar, em medida variável, o conjunto de eventos de sua vida, pela sincronicidade.

Ou por talvez, também, ao trabalhar sobre si, conseguir interferir no campo mórfico que correlaciona aspectos inconscientes seus a específicos tipos de eventos exteriores, mesmo sem saber que ou como o faz, alterando em variável medida o esquema geral até então predominante na sua existência.

Com tudo isto em mente é que a Astrologia Arquetípica pode ser um útil recurso para o cristão, seja católico, ortodoxo oriental ou protestante, ao ajudá-lo a detectar com maior precisão o panorama inconsciente que reside em sua memória (pessoal ou transpessoal) e influencia sua vontade, sem que sua inteligência o saiba, possibilitando-lhe, então, atuar sobre este cenário interno, buscando renová-lo por catarse e ressignificação para ser uma melhor pessoa.

Se S. Paulo incitou em Romanos, 12: 2: não vos conformeis ao mundo presente, mas sede transformados pela renovação da vossa inteligência, para discernirdes qual é a vontade de Deus: o que é bom, o que lhe é agradável, o que é perfeito, já que, como ele declarou em 1 Coríntios, 4: 20, o Reino de Deus não consiste em palavras, mas em ação, apenas a ampliação responsável e facilitada do autoconhecimento permite isto tudo, com a consequente e mais bem possibilitada revisão, pelo indivíduo, dos valores e das escolhas que o têm orientado.

E tal aprofundamento em si, quando este é o objetivo, é um dos frutos mais preciosos que a Astrologia pode oferecer, a despeito de como veio sendo (mal) percebida e entendida no lento decorrer dos séculos.

23 de fev de 2016

AUTOCONHECIMENTO PARA REFORMA ÍNTIMA

Em meados de década de 1980 enfrentei a necessidade de metodizar a entrevista devolutiva, para que a multiplicidade de informações oferecida pela Carta Natal pudesse compor uma narrativa organizada em linguagem leiga (isto é, sem jargão astrológico) que ordenasse as informações em um cenário roteirizado facilmente identificável e compreensível pela pessoa atendida.
A mente humana está a todo tempo engendrando e contando narrativas, quer para expressar-se, quer para assimilar o que está sendo percebido. É assim que ela funciona.
Portanto, quanto mais possível fosse apresentar as informações da Carta Natal dentro de um ordenamento dinâmico que viesse das fases finais da gestação até a vida adulta, passando pela infância e puberdade, mais fácil seria para a pessoa, depois, aproveitar as informações no trabalho de autoconhecimento para reforma íntima que estivesse desenvolvendo ou pretendendo desenvolver.

Em decorrência de minhas pesquisas, optei por estabelecer duas classes distintas de conteúdos psíquicos que se revelam pela interpretação arquetípica da Carta Natal:
a. fatores psicodinâmicos inatos, que passei a denominar “traços estruturais de personalidade”;
b. fatores psicodinâmicos condicionados, que passei a denominar “traços conjunturais de personalidade”, na medida em que passaram a vigorar por introjeção de dados da conjuntura vivida pela pessoa quando criança, dadas as características do ambiente de primeira infância.
Tais diferentes classes de conteúdos psíquicos merecem abordagens distintas pelo indivíduo, pois os traços estruturais, que são tipológicos, requerem “gerenciamento de aspectos pessoais perenes”, ao passo que os traços conjunturais, por decorrerem de treinamento por exposição a modelos paterno e materno, devem – e podem – ser alvo de “desprogramação” ou descondicionamento, seja em terapia, seja em reforma íntima empreendida por si próprio.

Com este método, por década e meia atendi pessoas interessadas em desvendar os mistérios de sua personalidade, já que tudo decorre da mente: o que somos “aqui fora” em enorme parte depende de como somos “lá dentro”.
Depois, passei a atender indo ao encontro da pessoa e, adiante, passei a atender apenas virtualmente, oferecendo relatórios escritos de interpretação elaborados um a um, isto é, não por software, dada a delicadeza e a intimidade de cada caso.

Se houve uma estrada pela qual a pessoa veio do nascimento até o momento presente de sua vida, relembrar e ressignificar o já vivido, do mais remoto ao atual, seria facilitado se fossem assinalados os principais pontos de referência para o caminho de volta e a retomada de si, sobre os quais a pessoa poderia, então, se debruçar para poder viver um hoje reformado para melhor.
Nisto, busquei ecoar Jung:
"o simples conhecimento intelectual não basta, pois só é eficaz uma rememoração que seja ao mesmo tempo vivenciada de novo. Muitas coisas irresolvidas ficam para trás devido ao rápido escoar dos anos e ao afluxo invencível do mundo que acaba de ser descoberto. Mas não nos livramos destas coisas, apenas nos afastamos delas. Se muito tempo depois evocarmos novamente a infância, nela encontraremos muitos fragmentos vivos da própria personalidade, que nos agarram, e somos invadidos pelo sentimento dos anos transcorridos. Esses fragmentos permanecem num estágio infantil e por isso são intensos e imediatos. Só por meio de sua religação com o consciente adulto poderão ser corrigidos, perdendo seu aspecto infantil".
Ou, como Fernando Pessoa poetou:
A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou.
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
quero ir buscar quem fui onde ficou.

No desenvolvimento de um modelo de estrutura narrativa eficiente para apresentar por escrito a interpretação da Carta Natal segundo a Astrologia Arquetípica, fui auxiliado pelo fato de ser jornalista e ter atuado nas três principais funções da imprensa escrita (repórter, redator e editor), enquanto treino de desenvolvimento de competências complementares: coleta de informações, tradução das informações em redações concisas e disposição dos conteúdos redigidos em narrativas gerais contextualizadas.
E de ser escritor, o que facilitou quando por fim passei a interpretar apenas por escrito (graças à Internet): tendo os dados natais da pessoa, ao invés de recebê-la para duas ou três horas de entrevista pessoal passei a enviar um relatório de interpretação para depois responder, também por escrito (e-mail), a dúvidas surgidas ou necessidade de esclarecimento adicional.

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