6 de nov de 2015

ASTROLOGIA ARQUETÍPICA, A META-ASTROLOGIA DO SÉCULO XXI (Parte I)



(Parte 1)

Este trabalho não pretende analisar a história da Astrologia nem a produção de alguns de seus principais nomes, mas, para avançar, às vezes é preciso olhar para trás e verificar que tipo de percurso foi feito – e o que o apoiou.
Desde tempos imemoriais o ser humano adota os fenômenos celestes como indicadores confiáveis dos eventos que se dão na Terra, sejam inanimados ou animados e, se humanos, individuais, grupais ou coletivos.
Isto deu origem à Astrologia, que cedo pôde se distinguir da Astronomia (razão pela qual a Astronomia não é um "aperfeiçoamento científico" da Astrologia, como há quem creia).
O grego alexandrino Claudio Ptolomeu, por exemplo, tido como um dos primeiros sistematizadores conhecidos do pensamento astrológico, desenvolveu duas obras distintas com 25 anos de distância no tempo entre elas.
A primeira obra, Almagesto, abordou em 125 a Astronomia. Seu título original, “Síntese Matemática”, passou a ser chamado “O Grande Tratado” (do grego “Megale Syntaxis”) e, ao ser traduzido do grego ao árabe em 870 por Ishaq bin Hunain (também responsável pela tradução do Timeu, de Platão, do Metafísica, de Aristóteles, e do Antigo Testamento), recebeu o título “Al-Magisti” (do árabe “O Maior”), donde a corruptela Almagesto.
Nele, complexas fórmulas matemáticas de geometria plana e espacial buscaram definir em 13 livros (ou capítulos) distintos a esfericidade da Terra e do céu, o geocentrismo, a imobilidade da Terra no espaço, a rotação diurna da esfera terrestre e o tamanho e a localização dos corpos siderais conhecidos (Terra, Lua, Sol, 5 Planetas, ou “astros errantes”, e estrelas, tidas como “fixas”).
Aproveitando conhecimentos anteriores, como os do grego Hiparco (190-120 a.C.), e com instrumentos rudimentares, Ptolomeu catalogou no Almagesto 48 constelações e 1.022 estrelas diferentes, 172 das quais descobertas por ele.
Duas décadas e meia mais tarde, por volta de 150 ele compôs o Tetrabiblos (do grego “Quatro livros”), no qual estabeleceu: “dos meios de predição através da astronomia, dois são os mais importantes e válidos. Um, que é o primeiro tanto na ordem como na eficácia, é o pelo qual apreendemos os aspectos dos movimentos do Sol, da Lua e das estrelas em relação uns aos outros e à Terra, enquanto eles ocorrem, ao longo do tempo”.
Ou seja, o que hoje chamamos, propriamente, “Astronomia”.
Arrematando, a seguir: “o segundo é aquele no qual, por meio da característica natural desses aspectos em si mesmos, investigamos as mudanças que eles trazem ao que eles circundam”.
Isto é, o que hoje chamamos “Astrologia”.
Mesmo assim, no correr dos séculos Astronomia e Astrologia andaram lado a lado, até virem a se separar definitivamente a partir dos finais do Renascimento e do início da marcha da Ciência na Idade Moderna.
A visão de Ptolomeu, como subsiste há milênios, já que só muito recentemente se pôde passar a entender de outro jeito, era a de existirem relações objetivas de causa e efeito entre fenômenos celestes e eventos terrestres: “se esses assuntos fossem considerados desta forma, todos julgariam que necessariamente não apenas as coisas já compostas devem ser afetadas do mesmo modo pelo movimento destes corpos celestes, mas da mesma forma a germinação da semente deve ser moldada e conformada à qualidade própria dos céus naquele momento” (destaque meu).
Todavia, ele também alertou no Tetrabiblos: “não devemos acreditar que eventos separados ocorram para a humanidade como resultado de causa celestial, como se eles tivessem sido ordenados originalmente para cada pessoa por um comando divino irrevogável e destinados a acontecer sem a possibilidade de nenhuma outra causa, qualquer que seja, intervir”.
Pois, em sua visão, e seguindo de perto Aristóteles (Ptolomeu era um aristotélico), em toda manifestação da existência ocorre o concurso de quatro fatores de causação: a) causa formal, b) causa material, c) causa eficiente e d) causa final.
A causa formal é o que faz cada coisa ser como é, isto é, a forma da coisa, por oposição à matéria, que é a substância da coisa, a causa material. A causa eficiente é o que age e faz a coisa ir da virtualidade (possibilidade de existir) ao ato (fato de existir) e a causa final é a finalidade da coisa, implícita desde o início em sua dinâmica de existência, como fator orientador.
Ou, “enteléquia”, como Aristóteles denominava a causa final, que de certa forma se aproxima da noção de “destino”, já que, como define o Houaiss e fica bem fácil de compreender, enteléquia é “a realização plena e completa de uma tendência, potencialidade ou finalidade natural, com a conclusão de um processo transformativo até então em curso em qualquer um dos seres animados e inanimados do universo”.
Se a obra ptolomaica viria a ser uma das bases da Astrologia Ocidental, por intermédio de árabes que a preservaram e enriqueceram na sua sistematização, em outras partes do mundo se desenvolveram outros tipos de Astrologia, como, entre outras, a chinesa e a védica hindu (ou Jyotisha).
A Astrologia chinesa teve início por volta de 2.500 a. C., segundo pesquisadores. Como o padrão simbólico de 12 recorria por lá também, provavelmente associado ao total de lunações de um ano solar (igual em todo lugar da Terra), há 12 Signos (denominados por animais) com significado modulado por 5 Elementos (Fogo, Terra, Ar, Água e Metal) e por 2 Polaridades (Yang, ou positiva, e Yin, ou negativa).
Mas, diferente da Astrologia ocidental, de origem mesopotâmica, um mesmo Signo pode ser associado na Astrologia chinesa a diferentes Elementos e a ambas as Polaridades, oferecendo uma mais ampla variação de sentidos.
Todo ano, todo mês, todo dia e toda “hora dupla” (24 horas do dia, divididas por 12 Signos) têm início com um Elemento e um Signo, fazendo com que haja, por exemplo, enquanto símbolo, um Rato Yang de Madeira ou um Boi Yin de Madeira, um Tigre Yang de Fogo ou um Coelho Yin de Fogo. Por contraste, vale lembrar que na Astrologia Ocidental, além de haver um Elemento a menos, todo Elemento é associável apenas a uma Polaridade (Signos de Ar e Fogo são sempre Positivos, ou Yang, e Signos de Terra e Água são sempre Negativos, ou Yin).
Por sua vez, a Astrologia hindu védica (Jyotisha) tem base no Rig-Veda, um dos textos mais antigos e preservados das tradições indo-arianas (1700 a 1100 a. C.). O Rig-Veda foi compilado e apresentado ao Ocidente pelo orientalista e mitólogo alemão Max Müller, o pioneiro sistematizador da disciplina “Religiões Comparadas”.
É tão grande a importância simbólica dada aos Nodos Lunares na Jyotisha, que eles praticamente têm o mesmo status dos Planetas. Mas os Nodos Lunares, cabe lembrar, não são corpos objetivos, pois sinalizam os locais no espaço sideral que marcam as intersecções geométricas calculadas entre a órbita da Lua em torno da Terra e a órbita da Terra em torno do Sol.
A Astrologia hindu védica também se construiu sobre os 7 corpos siderais vistos a olho nu e elaborou um sistema de 12 Casas astrológicas, mas os significados neste sistema por vezes divergem (e em muito) dos significados atribuídos pela Astrologia ocidental (por exemplo, a Casa VI jyotisha indica também “inimigos”, assunto próprio de Casa VII na Astrologia Ocidental, assim como a Casa XII jyotisha indica “viagens ao estrangeiro”, assunto que é de Casa IX na Astrologia Ocidental).
Nela, chama atenção o sistema de “Casas derivadas”, ou Bhavat Bhavan, no qual toda Casa pode ser a primeira Casa de um novo sistema de Casas e, assim, dar base à leitura de significados encadeados em sucessão (derivados).
Por exemplo, a Casa V de uma Carta natal denota Filhos. Se tomarmos a Casa V como a primeira Casa de um novo sistema de Casas, a Casa XI desta mesma Carta (Casa VII a contar da Casa V) indicará o perfil geral da esposa do Filho simbolizado pela Casa V. Ainda neste caso, a Casa XII da Carta natal será a Casa II da Casa VII a contar da Casa V e, deste modo, simbolizará os predicados desta esposa, no tocante a bens e posses materiais, mas também quanto à aparência de seu rosto (assunto de Casa II, na Jyotisha).
Por fim, para encerrar este ligeiríssimo sobrevoo sobre distintas Astrologias, cabe ver o que é denominado Partes (ou Lotes) Árabes, embora não sejam de origem árabe e, sim, apenas tenham sido mais bem sistematizadas por astrólogos como o persa Ahmad al-Biruni (973-1048), pois Marcus Manilius e Vettius Vallens, astrólogos contemporâneos de Ptolomeu, já as estudavam.
A Parte Árabe comumente mais conhecida (há dezenas de outras) é a chamada “Roda da Fortuna”, que se calcula a partir da relação geométrica entre Sol, Lua e Ascendente no Zodíaco (variando a fórmula conforme a hora de nascimento, se diurna ou noturna). Assim como os Nodos Lunares, todas as Partes não se referem a nada de base objetiva (como os corpos siderais), mas a alguma relação matemática entre pontos de diferentes fatores zodiacais.

O que foi visto até aqui, em meio a tanta diversidade simbólica?

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