30 de nov de 2015

ASTROLOGIA ARQUETÍPICA, A META-ASTROLOGIA DO SÉCULO XXI (Parte IV)


(Parte 4)

Edgar Morin, o brilhante pensador contemporâneo francês que vem desenvolvendo desde a década de 1970 o Pensamento da Complexidade, foi claro em Introdução ao Pensamento Complexo: a ciência se baseia ao mesmo tempo no consenso e no conflito. Anda ao mesmo tempo sobre quatro patas independentes e interdependentes: a racionalidade, o empirismo, a imaginação, a verificação. Há conflito permanente entre racionalismo e empirismo; o empírico destrói as construções racionais que se reconstituem a partir das novas descobertas empíricas. Há uma complementaridade conflituosa entre a verificação e a imaginação. Enfim, a complexidade científica é a presença do não científico [o postulado] no científico [que exige comprovação ou refutação], o que não anula o científico; ao contrário, lhe permite exprimir-se.
Em decorrência, como ele ensinou em O Método 2 – A vida da vida, o pensamento complexo deve ultrapassar as entidades fechadas, os objetos isolados, as ideias claras e distintas, mas não deve deixar-se encerrar na confusão, no vago, na ambiguidade, na contradição (...) A sua exigência lógica deve, portanto, ser muito maior do que a do pensamento simplificador, já que se bate permanentemente numa “no man’s land”, nas fronteiras do dizível, do concebível, do a-lógico e do ilógico.
Afinal, segundo ele, há a necessidade de uma formidável infraestrutura conceitual e de uma formidável estrutura teórica para conceber abstratamente a mínima parcela concreta de vida.


Com isto em vista, eu venho propondo que o desenvolvimento conceitual da Astrologia Arquetípica, enquanto meta-Astrologia e no tocante ao seu perfil de especialização associado às Ciências do Comportamento, decorra do trabalho articulado de várias áreas de saber, de modo a tornar-se conhecimento de interesse científico:


Astrologia ocidental, arábica, chinesa ou Jyotisha védica, hindu? Astrologia Clínica, Eletiva, Empresarial, Horária, Médica, Mundial ou Vocacional? Cada qual existe por ter sido posto sob escrutínio um específico aspecto da existência manifesta, com os símbolos de uma peculiar cultura e de acordo com o perfil pessoal, as preferências, as possibilidades e o tipo de preparo do estudioso.
Embora sejam várias, as Astrologias, e cada qual em seu feitio, todas se afirmam capazes de descrever, com maior ou menor grau de acerto, uma mesma realidade que se queira diagnosticar (e ou prognosticar), seja coisa, evento ou pessoa. Mesmo sendo variadas, parecem apontar o mesmo.
Contudo, como se apoiam em típicas produções culturais, dada a sua natureza simbólica não há como, e nem se deve pretender, reduzi-las a uma única, ou principal, o que seria necessário para haver consistência e replicabilidade universal (no sentido estrito de válido em qualquer local, época ou sociedade) na explicação do que todas elas apontam, na compreensão de como o fazem e na utilização mais plena e generalizada de sua potencialidade informativa.
Apenas um olhar que veja do alto, busque padrões comuns recorrentes e não se detenha em particularidades, embora as reconheça e considere, pode conseguir ver o que seja o fundamento comum de tal variedade de formas.

O que parece poder associar estas tantas especialidades, por mais que sejam distintas em sua técnica e forma de expressão?
O simbolismo arquetípico, que em todo local e época (embora com símbolos e sintaxes típicas) parece descrever e apontar fatores imateriais e não temporais cocausadores da existência manifesta, e por meio do qual (o simbolismo) certas características potenciais da existência se deixam revelar a quem souber interpretá-lo.
Ainda avançando na elaboração de seu modelo epistêmico, ou de conhecimento, a Astrologia Arquetípica se propõe como um possível sistema conceitual meta-Astrológico, buscando alcançar categorias mais precisas e uniformes de conhecimento descritivo que sejam associáveis à multiplicidade de conjuntos simbólicos e procedimentos técnicos de definição dos fatores de cocausação da existência, pelas diferentes Astrologias, mesmo as respeitando em suas particularidades simbólicas ou técnicas, ao mesmo tempo em que gerar condições mais estáveis para conceituação, testagem e validação de suas afirmações, por não se tratar de crença, mas, sim, de conhecimento.
Podendo, com isso, ajudar na expansão do nível de consideração, em campos convencionais de conhecimento científico, da validade das descrições fenomênicas propiciadas pelas diferentes técnicas e linguagens astrológicas, e apoiar o avanço de pesquisas ou experiências controladas que enriqueçam o próprio acervo de fatores-símbolos e significados das Astrologias, beneficiando-as e aos seres humanos aos quais elas servem.

A Astrologia Arquetípica tem por propósitos:
§  auxiliar no estabelecimento de pontes conceituais entre as Astrologias e noções contemporâneas da Física de Partículas, da Biologia, das Neurociências, da Psicologia e da Semiótica;
§  auxiliar no estudo dos significados comuns a todas as Astrologias, com base no estudo dos arquétipos humanos e de um corpo de Ciências correlatas, em uma proposta meta-Astrológica que ajude a aprimorar a compreensão da base comum de significado de várias Astrologias;
§  auxiliar na elaboração de metodologia que permita a comprovação das afirmações das Astrologias e sua inserção entre os campos de interesse científico, como tecnologia, para novas e melhores pesquisas.
Pois penso ser mais do que chegada a hora em que a Astrologia decida assumir declaradamente o papel que lhe pertence no conjunto dos saberes e fazeres de interesse científico, contribuindo com todos os campos de conhecimento graças a sua possibilidade de interpretar símbolos arquetípicos que, em caleidoscópicos arranjos semânticos, denotam a parcela da existência que se quiser conhecer melhor, seja qual for.

Como Edgar Morin disse em Ciência com consciência, a ciência é, e continua a ser, uma aventura. A verdade da ciência não está unicamente na capitalização das verdades adquiridas, na verificação das teorias conhecidas, mas no caráter aberto de aventura que permite, melhor dizendo, que hoje exige a contestação das suas próprias estruturas de pensamento (...) Talvez estejamos num momento crítico em que o próprio conceito de ciência se esteja modificando.
Para um panorama como este é que parece apontar a emersão vigorosa da chamada Nova Ciência, que pode se tratar, de fato, de um tipo de saber multiparadigmático e dialógico que articule de modo fecundo diversas especialidades já existentes sem roubar especificidade a nenhuma, mas também sem deixar a alguma a supremacia delirante – basta só eu! basta só eu! –, salvo a necessária preeminência no momento mesmo da intervenção objetiva, a qual costuma exigir preparo específico adequado, seja médico, psicólogo, gestor, professor ou outra especialidade produtiva qualquer.
Oxalá se consiga!

24 de nov de 2015

ASTROLOGIA ARQUETÍPICA, A META-ASTROLOGIA DO SÉCULO XXI (Parte III)




(Parte 3)

Buscando ilustrar, valho-me da Mitologia grega, tal como cantada no Século VII a. C. pelo poeta grego Hesíodo em Teogonia.
As Hórai, filhas de Zeus e Themis (a “Justiça Divina”), estipulavam padrões para os ciclos da natureza e as ações humanas no decurso da existência, enquanto as Moirai (do grego moîra, “parte destinada a cada um”), também filhas destes mesmos deuses, estabeleciam o que a cada ente seria dado viver, segundo a medida individual pela qual todo existente, aventurado ou desventurado, encontraria sua razão de existir ao se integrar na ordem desejada por Zeus no tempo certo de cada um, ou kairós (do grego “oportunidade”), diferenciado de kronos, (do grego “tempo”), a dimensão temporal sequencial e linear vivida no cronômetro, com o que, se kronos é tempo quantitativo, kairós é qualitativo.
Para tanto, as Moirai faziam sentir sua ação em obediência às características individuais específicas (do grego ananké, “necessidade”), no kairós de cada qual (determinado pelas Hórai) e por meio de seus decretos (heimarmene) sempre justos (por Themis) e poderosos (por Zeus).
A partir destas noções, mesmo sendo apenas mitológicas, propus em Por uma Filosofia da Astrologia: da vida humana, determinada por herança genética e epigenética, por dinamismos psíquicos inconscientes (alguns dos quais, inacessíveis) e por efeitos ressonantes e recursivos de campos psicoides e campos mórficos (...), podemos dizer que o indivíduo avança de evento em evento, interno e ou externo, num plano variável entre destinação e algum arbítrio – mas, entre ambos, destinação e arbítrio, a determinação das Moirai tem supremacia, porque atende a ananké. O que a Astrologia Arquetípica propicia conhecer é a ananké pessoal, que decorre da causação havida (a determinada e a condicionada), e como os heimarmene vão em cada kairós ocorrendo, já que com isso a necessidade (também do latim necessitas, ‘inevitável, inelutável’) se cumpre, fiel ao que foi estabelecido na causação do indivíduo, seja por efeito de campo mórfico, por tessitura arquetípica, por herança genética e epigenética somato-psíquica e ou por condicionamento. Traduzindo-me: surgido, o conjunto de características peculiares do fenômeno (as destinadas e as condicionadas, atuais e ou potenciais) requer que determinados eventos, e não outros, ocorram em sua existência, sem os quais ele, o fenômeno, não será a mais plena expressão de si próprio. Por isso, tais ocorrências são sua necessidade, e o que a Carta astrológica natal expõe é quais ocorrências são estas (em qualidade ou natureza) e quando se darão, isto é, o destino.
Falando dos símbolos astrológicos, o psiquiatra e psicólogo suíço Carl G. Jung registrou que não são as posições aparentes dos astros que atuam, mas os tempos que são medidos e determinados por posições arbitrariamente designadas dos astros. O tempo apresenta-se [no espaço], então, como uma corrente de acontecimentos cheia de qualidades.
De outro lado, o astrólogo franco-americano Dane Rudhyar declarou que os eventos não acontecem a nós, nós acontecemos a eles.
Talvez pelas mesmas razões o filósofo neoplatônico Plotino afirmou no Século III que o movimento dos astros assinala os eventos futuros em cada caso, mas ele mesmo [o movimento dos astros] não causa todos os eventos, como se acredita. Tudo, pois, está cheio de sinais, e sábio é aquele que aprende uma coisa de outra.
Jung conceituou quase ao final de sua vida que os arquétipos têm vida própria que se estende pelos séculos e dá aos éons sua marca específica, em formulação análoga ao que Sheldrake, referindo-se a campos mórficos, viria a teorizar mais de 20 anos depois.
Com isso, Jung lançava uma importante base para o entendimento da perenidade significativa dos símbolos astrológicos na detecção dos fenômenos a que os arquétipos se associam (e, talvez, atuem como causas formais e eficientes, sempre consoantes à causa final e agindo sobre a causa material), razão pela qual a descrição fenomênica de há séculos, possibilitada pela Astrologia, não difere tanto da contemporânea no que há de essencial.
Sheldrake foi na esteira: ao considerar a hipótese de ressonância mórfica da memória, poderíamos perguntar: se nos sintonizamos com as nossas próprias memórias, então porque não nos sintonizamos também com as de outras pessoas? Eu penso que nós nos sintonizamos (por intermédio dos campos mórficos) e que toda a base da abordagem que eu estou sugerindo é que existe uma memória coletiva à qual nós todos estamos sintonizados [LC: memória impessoal, devo salientar] e que compõe uma base contra a qual a nossa própria experiência se desenvolve, e em relação à qual as nossas próprias memórias individuais se desenvolvem. Esse conceito é muito semelhante à noção de inconsciente coletivo.
Como ele explica em A new science of life – the hypothesis of formative causation, o campo mórfico tem um papel causal no desenvolvimento e na manutenção das formas de sistemas de todos os níveis de complexidade. Esta atividade formativa dos campos mórficos é chamada causação formativa, frente à necessidade de distingui-la do tipo de causação energética, a qual é minuciosamente estudada pelos físicos, químicos e biólogos. Nesta hipótese, os campos mórficos só fazem sentir os seus efeitos em conjunção com os processos energéticos, mas não são energéticos em si mesmos.
Eu pergunto, restringindo-me aqui a fatos psíquicos (isto é, sem aludir a objetos e ou eventos): será que os campos mórficos igualmente codeterminariam padrões mentais genéricos de base arquetípica, os quais comporiam, em arranjos peculiares sempre conformes a kairós, os alicerces de cada particular individualidade existente e o conjunto de eventos que, em sincronicidade, ocorrerão na existência de cada uma, sendo assim a sua destinação?
Se sim, vou além: será que é ao resultado desta cocausação que a Astrologia Arquetípica simbolicamente se refere? Penso que sim, para ambas as questões.
Em Astrologia Arquetípica e comportamento,de Ptolomeu a Jung na teia do mundo cunhei a expressão “teia do mundo” para delinear conceitualmente o que quem sabe seja uma rede, ou teia, ou tessitura dinâmica de fatores imateriais de cocausação não residentes no espaço-tempo, atuantes no es-paço e no tempo em todo local e momento (mas variáveis, conforme o local e o momento) e identificáveis pelos símbolos das diferentes Astrologias, em sua multiplicidade de técnicas.
Olhando por instantes para fora da Astrologia, tal possibilidade talvez explique também a ocorrência de cognição sobre o futuro ou outros locais, por meio da identificação de fatores predisponentes estabelecidos fora do tempo e do espaço na causação de uma corrente de acontecimentos cheia de qualidades (Jung) no espaço-tempo, por efeito de campos mórficos, arquetípicos ou a ordem implicada, dê-se esta cognição por percepção paranormal ou com o concurso de sistemas simbólicos de suporte como os do Tarô, do I Ching ou da Kabbalah, para mencionar aqui apenas algumas técnicas (ou artes) de cognição mais conhecidas no Ocidente.
No caso específico da Astrologia, se for assim, igualmente então se entende por que uma Revolução solar oferece prognósticos que variam segundo o exato local (e momento) em que se vier a estar em um exato kairós no continuum tempo-espaço.
Tais fatores, entretanto, ao contrário da noção platônica de “ideias” inteligíveis influindo como matrizes eternas da existência sensível, teriam se originado a partir dos fatos da existência temporal e material, muitos deles aleatórios, passando a influir, após constituídos e atuando de fora do espaço-tempo, sobre a existência sensível que decorre no tempo e no espaço.
Existência que, enquanto se manifesta, por sua vez atua recursivamente sobre estes fatores imateriais e não temporais, com o passar do tempo e do espaço os altera em medida variável fora do espaço e do tempo e, assim fazendo, cocausa desde agora o que ocorrerá à frente no espaço-tempo.
Feito pegadas do já existido, mas guiando e codeterminando os passos e o rumo da existência que virá a ser.
Sheldrake informou: nos estágios iniciais de sua existência o campo mórfico é relativamente pouco definido e [por isso] é influenciado significativamente pelas variantes individuais [ou seja, pelas variações dos sistemas afins àquele específico campo, que vão surgindo]. À medida que o tempo avança, a influência cumulativa de inumeráveis sistemas análogos vai conferindo uma estabilidade cada vez maior ao campo; assim, quão mais próximo da média for o sistema, maior a probabilidade de que ele se repita no futuro [cocausando eventos similares, seja molécula, substância, tecido, órgão ou organismo].
E, creio eu, também, padrão básico de comportamento.
Jung ensinou, em sentido equivalente ao sugerido por Sheldrake no tocante à recursividade dos campos mórficos, que aquilo que acontece na consciência humana tem um efeito retroativo sobre o arquétipo inconsciente.
Mais ainda: o arquétipo é universal, isto é, sempre e em toda parte é idêntico a si mesmo. Se for tratado corretamente, nem que seja num lugar apenas, ele é influenciado como um todo, isto é, simultaneamente e em toda parte.
A tudo isto os símbolos das diferentes Astrologias parecem apontar, cada qual em sua própria sintaxe, razão pela qual apenas um estudo que diligentemente integre diferentes disciplinas permitirá avançar no entendimento das razões de efetividade das Astrologias.

E para isto terei de mencionar o Pensamento da Complexidade.

14 de nov de 2015

ASTROLOGIA ARQUETÍPICA, A META-ASTROLOGIA DO SÉCULO XXI (Parte II)


(Parte 2)

A coisa mais bela que o homem
pode experimentar é o mistério.
É essa emoção fundamental que está
na raiz de toda ciência e toda arte.
Albert Einstein

Em 1915 Albert Einstein, antes de concluir a Teoria da Relatividade Geral, apresentou seu trabalho ao alemão David Hilbert na Universidade de Göttingen.
Hilbert, um dos maiores matemáticos do mundo na época (e até hoje), finalizou a sofisticada formulação algébrica da Teoria, gerando o que passou a ser conhecido como “Ação Einstein-Hilbert”.
Segundo Hilbert, “a Física era muito importante para ficar apenas nas mãos dos físicos”.
Penso o mesmo em relação à Astrologia: ela precisa ir além dos astrólogos.
Entretanto, ela só poderá ser enriquecida, e ter sua enorme importância reconhecida, na medida em que competentes especialistas de variados campos de conhecimento se dediquem a estudar, compreender e descrever as sofisticadas dinâmicas factuais e conceituais que lhe dão efetividade.
Isto não significa que ela perderá seu poder de “encantar”, assim como, segundo a expressão do sociólogo Max Weber, a Ciência produziu o desencantamento do mundo. Isto entronizará o encantamento, enquanto vivência afetiva, onde ele de fato deve ficar: extasiada admiração pela vida, mas compreendida até onde for possível em cada fase do saber humano.

Em 2013, lembrei em Astrologia Arquetípica, autoconhecimento e espiritualidade que a maioria dos astrólogos, até entre os que são brilhantes profissionais e competentes intérpretes ou analistas, leva anos a fio discutindo minuciosamente aspectos de cálculo, simbolismo e interpretação, só metodologia ou técnica prática e, não, aspectos epistemológicos da Astrologia, e isto a mantém restrita a círculos limitados de especialistas ou interessados, sem permitir maior extrapolação de seus conhecimentos para outras áreas de interesse científico. Pior: lida com o conjunto de seus conceitos como se fosse matéria de fé, com extrema dificuldade em admitir-lhe a refutação, mantendo em torno a ela uma desnecessária aura quase que de magia dogmática.
Isto traz dois severos prejuízos ao desenvolvimento da Astrologia.
De um lado, a tentativa nem sempre bem sucedida, porque muitas vezes impraticável ou de fruto ruim, de estabelecer sínteses de sentido ou técnica entre Astrologias díspares que se apoiam em pressupostos bastante distintos (a Astrologia Jyotisha é nitidamente teísta, a Chinesa é marcadamente filosófica e a Ocidental é cada vez mais associada às Ciências do comportamento).
Isto gera mais indefinição e vagueza do que avanço em compreensão, à medida que dá margem a especulações que têm bem pouco de consistência e terminam sendo mais enlevos líricos do que declarações de conhecimento.
De outro, a manutenção, sob variadas vestimentas, do mais prejudicial postulado da Astrologia moderna e contemporânea: a suposição da “ação de energias”, sejam quais forem, como causa eficiente dos eventos diagnosticados ou prognosticados pelas Astrologias. Enormemente prejudicial, devo frisar, menos por ser errôneo e, mais, porque encarcera a compreensão e desmobiliza o questionamento, rumo a descobertas mais bem explicativas e consistentes.

Não poderia ser de outro modo: o irromper da Ciência no Século XVII foi tão avassalador, imperioso e revolucionário, em uma época de mais limitada comunicação – em 1600 William Gilbert inventou o termo eletricidade; em 1633 Galileu Galilei foi considerado herege por criticar o geocentrismo; em 1636 René Descartes publicou o Discurso do Método, e em 1687 Isaac Newton apresentou o Principia –, que a partir daí passou-se a crer que tudo pode ser explicado em termos de energia.
Isto – a “energia dos astros” – foi parecendo tão plausível, e tão fácil de entender, que se tornou pressuposto genérico e paradigma. Afinal, se tudo cada vez mais parecia ser energia e a energia cada vez mais parecia causar e mover tudo, por que com a Astrologia não seria assim?
A própria obra de Morin de Villefranche, o mais influente astrólogo ocidental da Idade Moderna, foi publicada em 1661 sob o primado de tal suposição hipotética: “isto, por energia, causa aquilo”. Ele foi, em definitivo, um cartesiano.
Bem verdade que Villefranche permanecia atado a um teísmo primário, como demonstrou em Observações astrológicas: o certo é que os homens não dividiram o céu nem em doze Casas para a figura celeste, nem em doze partes iguais para os Signos do Zodíaco, diferentes em qualidades. Foram Deus e a Natureza que fizeram estas divisões, mas a causa eficiente, para ele, era seguramente a energia, como declarou em A Astrologia Gálica: a fortaleza de um planeta e sua virtude se diferenciam na medida em que a virtude, propriamente dita, significa sua natureza elementar ou influenciadora, por meio da qual o próprio planeta atua e, de outro lado, por fortaleza se entende a quantidade [ou intensidade] de dita virtude.
Levando, trezentos anos mais tarde, em obra premiada internacionalmente (Astrologia, Psicologia e os quatro Elementos), o astrólogo norte-americano Stephen Arroyo a propor uma base, em termos de energia, para toda a teoria astrológica. Desde que os Elementos descrevem as energias reais simbolizadas por fatores astrológicos, compreender seus princípios permite sintetizar o significado de um mapa natal de modo imediato.
Natureza elementar e influenciadora”, “por meio da qual o planeta atua”, em Morin de Villefranche; “energias reais simbolizadas por fatores astrológicos”, em Stephen Arroyo. Tudo continuava aprisionadamente igual e, em virtude da inconsistência factual (até dentro da lógica e dos fatos da própria Astrologia) do principal postulado adotado, o das “energias causadoras”, a Astrologia seguiu parecendo produção fantasiosa de mentes imaginativas e ou crédulas.

O Século XX trouxe um novo possível caminho explicativo (se houver apropriação criteriosa de conhecimentos de áreas distintas) por meio da mais abstrata das Ciências (ditas) Exatas: a Física.
Na virada do Século XIX para o XX a Ciência começou a conceber causas eficientes atuando desde fora do espaço-tempo, sem que, para isso, tivesse de aderir a alguma formulação teológica (embora suscitando aproximação afetiva com sistemas teístas impessoais, como o Taoísmo e o Zen-Budismo).
Isto se deu graças à Física de Partículas, notadamente na Mecânica Quântica.
Como viria a resumir em 1997 o norte-americano Henry Stapp, físico que ainda hoje pesquisa na Universidade de Berkeley a Física da Consciência, o processo fundamental da Natureza reside fora do espaço-tempo, mas gera eventos que podem nele ser localizados.
A segunda metade do Século XX viu seguidos avanços neste sentido.
O neuroanatomista Harold Burr, Professor Emérito da Universidade de Yale, concluiu em 1972 que, com as evidências que temos hoje em dia, parece seguro dizer que o único fator constante no crescimento e no desenvolvimento – o que inclui não apenas o aumento do número de células, mas sua diferenciação – são os campos, que ele chamava de “L-fields” (de “Life-fields”), referindo-se a campos imateriais formativos que ele detectara e pesquisava.
O físico David Bohm conceituou em 1980 o que chamou “ordem implicada”, atuante de fora do espaço-tempo na causação da “ordem explicada”, que então se manifesta no continuum espaço-tempo. Em suas equações ele demonstrou matematicamente aquilo que seria uma dinâmica ordenadora imaterial quântica, a “ordem implicada”, subjacente ou “dobrada”, que pré-ordena e orienta o que virá a existir na “ordem explicada”, manifesta ou “desdobrada”, incluindo o tempo, e estabelece as correlações entre os fenômenos, na “ordem explicada” (ou manifestada), conforme as correlações potenciais que as probabilidades mantinham entre si na “ordem implicada” (ou subjacente).
O biólogo Rupert Sheldrake propôs em 1981 na Universidade de Cambridge a hipótese dos “campos mórficos” (do grego morphé, “forma”): segundo ele, estes campos ordenam os sistemas aos quais eles se associam, afetando eventos que, de um ponto de vista energético, parecem indeterminados ou probabilísticos; eles, os campos, impõem padrões nas possibilidades de manifestação energética dos processos físicos (...) mas não são energéticos em si mesmos.

Em outra área de estudos, a Psicologia, que é a mais abstrata das Ciências da Natureza – com o avanço das Neurociências, como negar a ela o status de Ciência Natural? –, no transcorrer do Século XX se desenvolveram dois conceitos cruciais à produtiva articulação destas novas concepções da Física com a Astrologia: o conceito dos arquétipos, enquanto dinâmicas causadoras não submetidas a espaço e tempo, e o conceito de sincronicidade, enquanto inter-relação dinâmica entre eventos associados apenas pelo significado expresso.
Desde que se vá além da apropriação superficial que em geral se faz destes conceitos, com o que frequentemente se corrompe seu sentido originário e se tenta trazer a discussão para o velho campo da “energia”, em renitentes e mal disfarçadas tentativas de sobrevivência do paradigma positivista, parece residir aí uma possibilidade virtuosa: a do entendimento ampliado de dinâmicas de causa eficiente (intemporal e não espacial) que levam o fenômeno a cumprir sua causa final na existência (sua finalidade) sob efeito da causa formal (intemporal e não espacial), mas nos limites de possibilidade e dentro das características de sua causa material, estabelecida no espaço e tempo.
Se aqui roçamos o que soa como destino (“causa final na existência”), cabe recordar a psicóloga norte-americana Liz Greene, uma das mais competentes elaboradoras de teoria astrológica contemporânea. Em 1984 ela alertou em A Astrologia do destino: esquecemo-nos do que sabíamos a respeito do significado de destino e, por isso, as vicissitudes da vida, incluindo a morte, se nos afiguram no Ocidente uma violação e uma humilhação (...) A comunidade dos modernos profissionais da astrologia muitas vezes dá a impressão de se sentir muito envergonhada por ter que transacionar com o destino.
De que se fala aqui, ao ser mencionado o “destino”?

6 de nov de 2015

ASTROLOGIA ARQUETÍPICA, A META-ASTROLOGIA DO SÉCULO XXI (Parte I)



(Parte 1)

Este trabalho não pretende analisar a história da Astrologia nem a produção de alguns de seus principais nomes, mas, para avançar, às vezes é preciso olhar para trás e verificar que tipo de percurso foi feito – e o que o apoiou.
Desde tempos imemoriais o ser humano adota os fenômenos celestes como indicadores confiáveis dos eventos que se dão na Terra, sejam inanimados ou animados e, se humanos, individuais, grupais ou coletivos.
Isto deu origem à Astrologia, que cedo pôde se distinguir da Astronomia (razão pela qual a Astronomia não é um "aperfeiçoamento científico" da Astrologia, como há quem creia).
O grego alexandrino Claudio Ptolomeu, por exemplo, tido como um dos primeiros sistematizadores conhecidos do pensamento astrológico, desenvolveu duas obras distintas com 25 anos de distância no tempo entre elas.
A primeira obra, Almagesto, abordou em 125 a Astronomia. Seu título original, “Síntese Matemática”, passou a ser chamado “O Grande Tratado” (do grego “Megale Syntaxis”) e, ao ser traduzido do grego ao árabe em 870 por Ishaq bin Hunain (também responsável pela tradução do Timeu, de Platão, do Metafísica, de Aristóteles, e do Antigo Testamento), recebeu o título “Al-Magisti” (do árabe “O Maior”), donde a corruptela Almagesto.
Nele, complexas fórmulas matemáticas de geometria plana e espacial buscaram definir em 13 livros (ou capítulos) distintos a esfericidade da Terra e do céu, o geocentrismo, a imobilidade da Terra no espaço, a rotação diurna da esfera terrestre e o tamanho e a localização dos corpos siderais conhecidos (Terra, Lua, Sol, 5 Planetas, ou “astros errantes”, e estrelas, tidas como “fixas”).
Aproveitando conhecimentos anteriores, como os do grego Hiparco (190-120 a.C.), e com instrumentos rudimentares, Ptolomeu catalogou no Almagesto 48 constelações e 1.022 estrelas diferentes, 172 das quais descobertas por ele.
Duas décadas e meia mais tarde, por volta de 150 ele compôs o Tetrabiblos (do grego “Quatro livros”), no qual estabeleceu: “dos meios de predição através da astronomia, dois são os mais importantes e válidos. Um, que é o primeiro tanto na ordem como na eficácia, é o pelo qual apreendemos os aspectos dos movimentos do Sol, da Lua e das estrelas em relação uns aos outros e à Terra, enquanto eles ocorrem, ao longo do tempo”.
Ou seja, o que hoje chamamos, propriamente, “Astronomia”.
Arrematando, a seguir: “o segundo é aquele no qual, por meio da característica natural desses aspectos em si mesmos, investigamos as mudanças que eles trazem ao que eles circundam”.
Isto é, o que hoje chamamos “Astrologia”.
Mesmo assim, no correr dos séculos Astronomia e Astrologia andaram lado a lado, até virem a se separar definitivamente a partir dos finais do Renascimento e do início da marcha da Ciência na Idade Moderna.
A visão de Ptolomeu, como subsiste há milênios, já que só muito recentemente se pôde passar a entender de outro jeito, era a de existirem relações objetivas de causa e efeito entre fenômenos celestes e eventos terrestres: “se esses assuntos fossem considerados desta forma, todos julgariam que necessariamente não apenas as coisas já compostas devem ser afetadas do mesmo modo pelo movimento destes corpos celestes, mas da mesma forma a germinação da semente deve ser moldada e conformada à qualidade própria dos céus naquele momento” (destaque meu).
Todavia, ele também alertou no Tetrabiblos: “não devemos acreditar que eventos separados ocorram para a humanidade como resultado de causa celestial, como se eles tivessem sido ordenados originalmente para cada pessoa por um comando divino irrevogável e destinados a acontecer sem a possibilidade de nenhuma outra causa, qualquer que seja, intervir”.
Pois, em sua visão, e seguindo de perto Aristóteles (Ptolomeu era um aristotélico), em toda manifestação da existência ocorre o concurso de quatro fatores de causação: a) causa formal, b) causa material, c) causa eficiente e d) causa final.
A causa formal é o que faz cada coisa ser como é, isto é, a forma da coisa, por oposição à matéria, que é a substância da coisa, a causa material. A causa eficiente é o que age e faz a coisa ir da virtualidade (possibilidade de existir) ao ato (fato de existir) e a causa final é a finalidade da coisa, implícita desde o início em sua dinâmica de existência, como fator orientador.
Ou, “enteléquia”, como Aristóteles denominava a causa final, que de certa forma se aproxima da noção de “destino”, já que, como define o Houaiss e fica bem fácil de compreender, enteléquia é “a realização plena e completa de uma tendência, potencialidade ou finalidade natural, com a conclusão de um processo transformativo até então em curso em qualquer um dos seres animados e inanimados do universo”.
Se a obra ptolomaica viria a ser uma das bases da Astrologia Ocidental, por intermédio de árabes que a preservaram e enriqueceram na sua sistematização, em outras partes do mundo se desenvolveram outros tipos de Astrologia, como, entre outras, a chinesa e a védica hindu (ou Jyotisha).
A Astrologia chinesa teve início por volta de 2.500 a. C., segundo pesquisadores. Como o padrão simbólico de 12 recorria por lá também, provavelmente associado ao total de lunações de um ano solar (igual em todo lugar da Terra), há 12 Signos (denominados por animais) com significado modulado por 5 Elementos (Fogo, Terra, Ar, Água e Metal) e por 2 Polaridades (Yang, ou positiva, e Yin, ou negativa).
Mas, diferente da Astrologia ocidental, de origem mesopotâmica, um mesmo Signo pode ser associado na Astrologia chinesa a diferentes Elementos e a ambas as Polaridades, oferecendo uma mais ampla variação de sentidos.
Todo ano, todo mês, todo dia e toda “hora dupla” (24 horas do dia, divididas por 12 Signos) têm início com um Elemento e um Signo, fazendo com que haja, por exemplo, enquanto símbolo, um Rato Yang de Madeira ou um Boi Yin de Madeira, um Tigre Yang de Fogo ou um Coelho Yin de Fogo. Por contraste, vale lembrar que na Astrologia Ocidental, além de haver um Elemento a menos, todo Elemento é associável apenas a uma Polaridade (Signos de Ar e Fogo são sempre Positivos, ou Yang, e Signos de Terra e Água são sempre Negativos, ou Yin).
Por sua vez, a Astrologia hindu védica (Jyotisha) tem base no Rig-Veda, um dos textos mais antigos e preservados das tradições indo-arianas (1700 a 1100 a. C.). O Rig-Veda foi compilado e apresentado ao Ocidente pelo orientalista e mitólogo alemão Max Müller, o pioneiro sistematizador da disciplina “Religiões Comparadas”.
É tão grande a importância simbólica dada aos Nodos Lunares na Jyotisha, que eles praticamente têm o mesmo status dos Planetas. Mas os Nodos Lunares, cabe lembrar, não são corpos objetivos, pois sinalizam os locais no espaço sideral que marcam as intersecções geométricas calculadas entre a órbita da Lua em torno da Terra e a órbita da Terra em torno do Sol.
A Astrologia hindu védica também se construiu sobre os 7 corpos siderais vistos a olho nu e elaborou um sistema de 12 Casas astrológicas, mas os significados neste sistema por vezes divergem (e em muito) dos significados atribuídos pela Astrologia ocidental (por exemplo, a Casa VI jyotisha indica também “inimigos”, assunto próprio de Casa VII na Astrologia Ocidental, assim como a Casa XII jyotisha indica “viagens ao estrangeiro”, assunto que é de Casa IX na Astrologia Ocidental).
Nela, chama atenção o sistema de “Casas derivadas”, ou Bhavat Bhavan, no qual toda Casa pode ser a primeira Casa de um novo sistema de Casas e, assim, dar base à leitura de significados encadeados em sucessão (derivados).
Por exemplo, a Casa V de uma Carta natal denota Filhos. Se tomarmos a Casa V como a primeira Casa de um novo sistema de Casas, a Casa XI desta mesma Carta (Casa VII a contar da Casa V) indicará o perfil geral da esposa do Filho simbolizado pela Casa V. Ainda neste caso, a Casa XII da Carta natal será a Casa II da Casa VII a contar da Casa V e, deste modo, simbolizará os predicados desta esposa, no tocante a bens e posses materiais, mas também quanto à aparência de seu rosto (assunto de Casa II, na Jyotisha).
Por fim, para encerrar este ligeiríssimo sobrevoo sobre distintas Astrologias, cabe ver o que é denominado Partes (ou Lotes) Árabes, embora não sejam de origem árabe e, sim, apenas tenham sido mais bem sistematizadas por astrólogos como o persa Ahmad al-Biruni (973-1048), pois Marcus Manilius e Vettius Vallens, astrólogos contemporâneos de Ptolomeu, já as estudavam.
A Parte Árabe comumente mais conhecida (há dezenas de outras) é a chamada “Roda da Fortuna”, que se calcula a partir da relação geométrica entre Sol, Lua e Ascendente no Zodíaco (variando a fórmula conforme a hora de nascimento, se diurna ou noturna). Assim como os Nodos Lunares, todas as Partes não se referem a nada de base objetiva (como os corpos siderais), mas a alguma relação matemática entre pontos de diferentes fatores zodiacais.

O que foi visto até aqui, em meio a tanta diversidade simbólica?

1 de nov de 2015

ASTROLOGIA ARQUETÍPICA, A META-ASTROLOGIA DO SÉCULO XXI



Pouco antes da realização do Simpósio 2015 do SINARJ (Sindicato dos Astrólogos do Rio de Janeiro), o competente astrólogo, astrônomo e Doutor em Filosofia Alexey Dodsworth Magnavita publicou um post em sua página do Facebook, no qual apresentava três questões que seriam abordadas por ele e colegas em uma mesa redonda do evento:
1. A Astrologia se enquadra ou não na definição stricto sensu de “Ciência”?
2. É possível ver ou antever fatos concretos pela Astrologia?
3. A Astrologia é passível de ser submetida a testes e/ou pesquisas estatísticas nos moldes científicos atuais?
Foi uma lástima, mesmo tendo sido convidado com grande antecedência, eu não ter podido estar no Rio de Janeiro no final de semana em que o XVII Simpósio se desenvolveu. Então, decidi publicar neste blog o trabalho que eu me propusera a apresentar no evento, quando submeteria ao conhecimento de colegas o modelo epistemológico que venho buscando desenvolver para responder a questões como estas.

Para começar, o que eu teria respondido?
1. A Astrologia não é, em sentido estrito, Ciência, ao menos como se conceitua “ciência” contemporaneamente. Ela é, em meu entender e mais propriamente, uma técnica (ou, melhor, um conjunto de técnicas) que lança mão de conhecimentos, vocabulário e sintaxe de Ciências variadas para expressar o conhecimento que propicia por seus símbolos (creio, inclusive, que mesmo em outra conceituação a Astrologia não é uma Ciência específica, se Ciência implica produção de conhecimento em um campo delimitado de estudo da existência, pois, como técnica, ela se aplica ao mesmo tempo a variados e muito díspares campos de estudo da existência).
2. Sim, é possível ver ou antever a ocorrência de fatos objetivos (e subjetivos) por meio do uso das técnicas da Astrologia, tal como é possível diagnosticar ou prognosticar fatos em esferas variadas da existência por meio de outras técnicas específicas (o que não significa que tais fatos ocorrerão, já que deles se sabe, por antecedência, apenas a taxa de probabilidade de ocorrência).
3. Não somente a Astrologia é passível de ser submetida a testes e/ou pesquisas estatísticas, como deveria buscar que isto ocorresse, para que sua efetividade fosse admitida por campos de interesse científico e as pesquisas sobre ela pudessem se aprofundar e enriquecer.
Porque a segunda questão é a mais desafiadora: é possível conhecer com antecedência a provável ocorrência de fatos objetivos ou subjetivos? E, se sim, o que explica a efetividade da Astrologia?
Todo o mais é discussão técnica, subordinada à questão central: se ela funciona, como é que funciona?

Por séculos supôs-se ocorrer a ação de energias provindas de corpos siderais, e este postulado (cartesiano), tido como suficiente, fez parecer desnecessário o desenvolvimento de modelos explicativos mais coerentes.
(Não me estenderei aqui sobre a superação do pressuposto errôneo de a Astrologia apontar energias siderais. Este assunto trato melhor em Astrologia Arquetípica e comportamento – De Ptolomeu a Jung, na teia do mundo, dedicando um capítulo inteiro à demonstração, com base em Matemática e nas principais tabelas astrológicas utilizadas no mundo inteiro, da inexatidão deste pressuposto que dominou por séculos.)
Foi preciso que o Século XX avançasse na formulação de hipóteses de causas formais e causas eficientes situadas (e localizáveis) fora do continuum espaço-tempo, mas atuantes sobre as dinâmicas do continuum espaço-tempo, sem que isto obrigasse à suposição de alguma ação divina (já que tendemos a crer que qualquer coisa “fora” do espaço-tempo, mas a partir de “lá” atuante ou determinante, é Deus), para que no Século XXI se abandonasse de vez a hipótese de “energias planetárias causadoras” e se começasse a vislumbrar melhor o que talvez sejam as dinâmicas naturais ou supranaturais sinalizadas pela Astrologia o que atua como fatores de cocausação de fenômenos complexos, entre estes os humanos e, entre estes, os individuais, grupais ou coletivos.
Digo “naturais ou supranaturais”, já que se tende a julgar que “natural” é somente o que é objetivo, como se o subjetivo e o “fora do espaço-tempo” não pudessem ser também naturais, indicando que o próprio conceito de natureza está em via de reformulação.
Estas dinâmicas, se se aproximam do conceito de Ideias eternas em Platão, das quais a existência decorreria, também se acercam, mais ainda no tocante aos fenômenos da mente humana, do conceito junguiano de arquétipos, quando tomado no seu sentido originário, isto é, como Jung os conceituou, e não nas apropriações mais ligeiras (e distorsivas) que por habitualidade são feitas do conceito.

A meu ver, para isto a Astrologia contemporânea aponta.
E por isso tenho visto a Astrologia Arquetípica como “meta-Astrologia”, como já expliquei em post anterior e, para não obrigar revisão do leitor, torno a explicar aqui: “a Astrologia se caracteriza pela existência de diferentes alfabetos simbólicos e procedimentos técnicos para descrição diagnóstica e prognóstica de fenômenos. Comporta, assim, dentro do Pensamento da Complexidade, uma abordagem meta-Astrológica que transcenda as diferenças e amplie o reconhecimento público da Astrologia enquanto recurso útil de cognição. Esta abordagem, a meu ver, deve ser o objetivo da Astrologia Arquetípica. Importa frisar aqui, de início, que “meta-Astrologia” não é uma nova técnica interpretativa de símbolos astrológicos. O termo “meta” é proposto no conceito aristotélico: se, em Aristóteles, Metafísica era o estudo do que transcende o sensível, do grego “phusikós”, “da natureza” (Houaiss), meta-Astrologia é o estudo que lida criticamente com as Astrologias dentro de um conjunto nocional que almeja ultrapassar a especificidade de qualquer delas para focar no que haja de comum nelas todas – o que e como, realmente, elas denotam –, enquanto recursos explicativos de fenômenos ocorrentes no continuum espaço-tempo”.


No próximo post iniciarei a publicação do trabalho que eu teria apresentado no Simpósio SINARJ 2015, o qual dividirei em quatro partes sucessivas, para maior leveza de exposição aqui.

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