21 de mai de 2014

Em tempo de muda, passarinho pia baixo


Desde o final da década passada os astrólogos que se dedicam à Astrologia Mundial (especialidade que estuda os fenômenos coletivos de espectro nacional ou internacional) chamam a atenção para o que seria observado no mundo até por volta de 2017 com a chamada "Cruz Cósmica": quatro Planetas fazendo simultaneamente quadraturas e oposições entre si (Plutão, Urano, Júpiter e Marte) em Signos Cardinais (Áries, Câncer, Libra e Capricórnio).



Para quem estuda as manifestações arquetípicas humanas em âmbito coletivo, que se expressam em dinâmicas de amplo espectro sociocultural (o “espírito do tempo”, às vezes isto é referido), esta rara ocorrência zodiacal sinalizava o que viria a ser uma propensão inexorável das massas, fosse qual fosse a razão, parecendo ou não justa, e em todo o mundo, mais ativo aqui, menos ativo ali, a se desbordarem ações de assertividade/agressividade e movimentos de modificação/ruptura de estruturas convencionalmente estabelecidas.
Utilizei o termo “desbordarem” para caracterizar o que seria descomedimento, no que toca a ações grupais ou coletivas motivadas por impulsos de cunho afetivo (emocional) ancestral, de tão profundo e difuso seria a manifestação de si. Portanto, fora do controle do Ego e relativamente dissociadas da realidade, com contornos pré-psicóticos e em situações nas quais a ação decorre apenas do que se sente ou imagina e, não do que também se avalia, por mais que haja racionalização, depois ou durante, buscando expor a suposta razão lógica por trás da ação.
Posto isso como pano de fundo, vou ao que me ocupa (e, penso, deveria preocupar a todos).
A entrevista da GloboNews que motivou este post, pelos dados e raciocínios apresentados, merece cuidadosa atenção. Os entrevistados falaram de atos de justiçamento, de espaços virtuais de incitação à agressividade, do recrudescimento de atos de preconceito para exclusão e da ampliação de visibilidade da impositividade sádica que tanto ameaça.
A olhos mais voltados ao socioeconômico e sociopolítico, e menos atentos ao sociopsíquico, tudo isto poderia parecer apenas decorrência do estado de coisas vivido nas sociedades, cada qual à sua forma e de sua maneira, a que os indivíduos reagiriam, desta vez apoiados/incentivados pela comunicação exponenciada que as redes sociais oferecem e, portanto, com resultados imensamente ampliados, repercutidos e contaminantes em cobertura e velocidade.
Todavia, Primavera Árabe, Occupy Wall Street, manifestações brasileiras ou na Irlanda do Norte, táticas de Black Blocs e ressurreição da extrema direita e da extrema esquerda na Europa, entre os fenômenos que vêm ganhando visibilidade crescente (e assustadora), são muito mais do que fatos só decorrentes de estados de coisas a requerir alteração - embora também o sejam.
Discuto a forma, não o conteúdo.
Transformam-se em episódios, em nível coletivo, de agressividade autoafirmativa, repulsão ao diferente, desestruturação rumo ao caos (para rearranjo posterior) e desafio radical da ordem, a única forma de proteger a pessoa contra a anomia do coletivo.
Frente a quadro assim, pego-me pensando no quão necessário tem sido, ao lado da necessidade de não abandonar posições nem deixar de defender opções, fazer por adotar a postura que não incite o ódio, não excite a réplica, não alimente o furor.
No Brasil, país que tem Marte natal em Escorpião e sofre Saturno oposto a Marte, guardando no porão coletivo ressentimentos raivosos e agressividade refreada, não cabe ilusão: os linchamentos não são coisa de agora. Dados do Núcleo de Estudos da Violência da USP (NEV/USP) indicam 1.200 casos de 1980 a 2006. Quase um por semana, no período, com auge em 1991: 148.
Era de esperar que, inda mais em fase de vital e exacerbada disputa política de poder, ao Saturno transitar pelo mesmo Escorpião de outubro de 2012 a novembro de 2016, embora mais desafiador até dezembro de 2014, e atravessar a área que na Carta brasileira simboliza Governo de Estado, os ânimos se acirrassem ainda mais, inclusive porque induzidos por sistemas de comunicação que nada mais fazem senão destacar, diariamente, o descomedimento como “problema atual”, decorrente do que aí está.
Em cenário assim, como a palavra branda acalma a ira, e a dura excita o furor, muito é necessário que dentre nós, os que acreditam não ser a mudança na marra o melhor caminho a buscar, atenuem tudo o que possa parecer agressão, neguem a multiplicação de convites implícitos ou explícitos ao ódio, não se deixem cooptar por descrédito na ordem e na estrutura, para não contaminar mais o que está contaminável em excesso.
Quem não conhece a situação do quebra-quebra coletivo que, tomando de assalto o controle de muitos, trazem à tona o sub-humano que vive em nós e ataca a todos indiscriminadamente?
No que vemos, e tende a predominar nesta fase, “essas práticas indicam que estamos em face de rituais de exclusão ou desincorporação e dessocialização de pessoas que, pelo crime cometido, revelaram-se incompatíveis com o gênero humano, como se tivessem exposto, por meio dele, que nelas prevalece a condição de não-humanas. As mutilações e queimas de corpos praticadas nesses casos são desfigurações que reduzem o corpo da vítima a um corpo destituído de características propriamente humanas. São, portanto, rituais de desumanização daqueles cuja conduta é socialmente imprópria” (http://www.fflch.usp.br/sociologia/temposocial/site/images/stories/edicoes/v082/linchamento.pdf).
Se são rituais, são reverberações de dinâmicas arquetípicas demasiado profundas, nesta fase exacerbadas e ecoadas midiaticamente, requerendo de todos nós cuidado, muito cuidado – e atenção com o próximo e por ele, seja presencial, seja virtual.



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